EPISÓDIO 1. ODEMIRA – Cultivar sem água
A conversão do Alentejo Litoral em território de estufas e agricultura intensiva com recurso à tecnologia de ponta e hidroponia. Debruçamo-nos sobre a paisagem de regadio, os conflitos pelo uso da água e as transformações sociais e ecológicas que esta revolução implica.
Paisagens tecnológicas
Magazines documentais
6×50′
Cimbalino Filmes
Série documental que convida o espetador a repensar o modo como vemos, entendemos e nos relacionamos com a paisagem. Muito além do seu valor estético ou contemplativo, a paisagem é aqui abordada como resultado visível de longos processos de construção social, técnica e histórica. O território português é interpretado como um palimpsesto onde se inscrevem as marcas da ação humana — de técnicas ancestrais como os socalcos e os canais de rega, até às grandes infraestruturas modernas como as autoestradas, barragens e redes de telecomunicações. Com a apresentação e orientação do geógrafo Álvaro Domingues, e através de imagens de arquivo, registos aéreos, filmagens contemporâneas e entrevistas, a série revela como a paisagem espelha os modos de vida e as dinâmicas socio-técnicas que têm moldado o país.
EPISÓDIO 2. ALGARVE – Stress hídrico e conflitos de uso
Analisamos a escassez de água no Algarve, pressionada pelo turismo, citrinos e novas culturas como o abacate. Emergência de soluções técnicas (reutilização, dessalinização), mas também de tensões e riscos crescentes entre setores com interesses divergentes.
EPISÓDIO 3. ALTO TÂMEGA – A energia das águas e do vento
Gigabateria natural e renovável: a articulação entre barragens e eólicas. Uma paisagem marcada por grandes infraestruturas de produção e armazenamento energético, que alteram o ecossistema e provocam novas formas de coexistência entre natureza e técnica.
EPISÓDIO 4. SERRA DA ESTRELA – Do pastoreio ao data center
Um território de múltiplos usos históricos: pastoreio, lanifícios, turismo de saúde, energia e, agora, tecnologia digital. A paisagem natural cruza-se com sistemas artificiais, como o grande data center nacional, entre lagos, neve e cerejas do Fundão.
EPISÓDIO 5. DOURO VINHATEIRO – Inovar na tradição
A região do vinho revela-se como um laboratório tecnológico desde o combate à filoxera até à vinicultura de precisão. A paisagem “Património Mundial” é também fruto de engenharia e debate-se entre memória, conservação e inovação produtiva.
EPISÓDIO 6. ALQUEVA – A grande transformação agrícola
Do plano de rega sonhado desde o século XI à realidade de um sistema hidráulico massivo que redesenha o Alentejo. O Alqueva é motor de intensificação agrícola e tecnificação das culturas, com impactos na economia, nos modos de vida e no território.












NOTA DE INTENÇÕES
A proposta assenta na articulação entre dois conceitos fundamentais: “paisagem” e “tecnologia”, entendidos de forma interdependente e crítica.
Paisagem, neste contexto, não é apenas o cenário visível ou o objeto da contemplação estética. É uma construção cultural e social, que resulta da ação humana sobre o território ao longo do tempo. É também uma forma de ver: um dispositivo que incorpora narrativas, ideologias, valores simbólicos, práticas sociais e técnicas. Cada forma da paisagem é a materialização de escolhas — económicas, políticas, técnicas — que revelam modos de habitar, organizar e imaginar o mundo.
Tecnologia, por sua vez, não é compreendida como um conjunto neutro de ferramentas ou máquinas, mas como um sistema sociotécnico complexo. Envolve infraestruturas, conhecimentos, práticas, dispositivos e formas de regulação social que organizam a vida e o espaço. A tecnologia é o meio através do qual a sociedade transforma o território e, com ele, a própria paisagem. Da enxada ao satélite, do aqueduto à fibra ótica, cada artefacto técnico traduz uma visão de mundo e participa na construção da paisagem.
A série propõe, assim, uma chave de leitura em que a paisagem é entendida como expressão visível dos sistemas tecnológicos que a moldam, e em que a tecnologia é analisada enquanto força produtora de espaço, tempo e sentido. Inspirada na Geografia Cultural e nos estudos de ciência, tecnologia e sociedade, esta abordagem permite ler o território português como um arquivo vivo de relações entre técnica, cultura e poder.
Ao falar em “paisagens tecnológicas”, rejeitamos o ideal romântico de uma natureza intocada e destacamos a complexidade dos dispositivos que sustentam o modo de vida contemporâneo. As paisagens são produto de múltiplas camadas históricas e técnicas, reflexo de decisões nem sempre consensuais, mas sempre significativas. São também campos de conflito e negociação entre diferentes visões de futuro.
Cada episódio da série propõe-se a decifrar os traços materiais de uma região e a sua paisagem como indicadores de escolhas tecnológicas — desde os modos de habitar, cultivar e circular, até aos modos de comunicar e produzir energia. Trata-se de uma leitura não nostálgica, mas informada e crítica, que reconhece a ambiguidade das tecnologias: o seu potencial para criar bem-estar e, simultaneamente, os seus riscos e exclusões.
Este é um projeto de partilha de conhecimento com rigor científico, numa abordagem acessível e visual para o público que gosta de se manter informado e ser interpelado pela realidade. É também um mapeamento e repositório atualizado da paisagem portuguesa que propomos que seja, nesta primeira série, bastante abrangendo cobrindo a generalidade do território fora dos principais centros urbanos:
O objetivo final é oferecer ao espectador uma nova chave de leitura do território português, permitindo-lhe decifrar o que Portugal é através da compreensão de como a sua paisagem foi produzida e como o seu território foi construído pela mão (e mente) tecnológica do homem ao longo do tempo, validando assim que, de facto, “mudam-se os tempos, mudam-se as paisagens”.